sexta-feira, 30 de junho de 2017

Politiqua


Politiqua - O Discurso Político dos Quadrinhos é um dos muitos fanzines estrangeiros - neste caso, um zine do Brasil - que tenho na minha colecção. É o nº14, de Janeiro de 89, e acrescenta Ano V, pormenor importante para definir a sua longevidade.

O conteúdo do zine é consistente no que concerne ao equilíbrio temático entre textos e bandas desenhadas, salientando-se, nesta componente, uma delas (abaixo reproduzida) em apenas três vinhetas com um forte sentido crítico político. 
Leia-se a frase de um dos intervenientes: "Aqui no Brasil um cara perdeu a cabeça, no lugar colocamos um coco e um bigode. Hoje ele é Presidente da República" (note-se que Michel Temer não usa bigode, além de que esta charge em quadradinhos foi feita em 1988, por Marcos Freitas, desenho, e Robson Freitas, argumento/guião).


Outra curta de BD (6 pranchas) com muita graça é a paródia dedicada a The Spirit, aliás extraída da revista (fanzine?) espanhola Wendigo. A autoria da divertida peça é de Buyll Aisner (aliás, A.Buyll), que imita com desembaraço o talentoso Will Eisner. Veja-se em baixo a reprodução completa da banda desenhada:
 







Entre os textos, há vários bem interessantes, de que reproduzo excertos. 
Por exemplo, na rubrica "Os Fanzines Europeus", no primeiro parágrafo aparece a expressão "movimento fanzinístico", que me soa familiar (é o que eu uso) bem mais urbana (e considero que os zines constituem basicamente um movimento  editorial urbano) do que "movimento fanzineiro", que também já vi escrito noutros fanzines brasileiros.

Início de citação:

"Existem dezenas e dezenas de pequenas publicações na Europa que formam uma verdadeira imprensa paralela, mantida por amadores, sem censura, e que percorrem uma variada gama de assuntos como HQ, cinema fantástico, ficção científica, etc. Apresentamos alguns dados sobre os fanzines de alguns países que surgiram durante os anos 70, para que possamos traçar algum paralelo com o movimento fanzinístico brasileiro."

BÉLGICA
Jan Jensen foi um dos primeiros correspondentes dos fanzines americanos, durante os anos 50. Publicou inúmeros fanzines e criou o "The Alpha Club". Michel Grayn criou Atlanta que foi catalizador dos fanzines belgas, se tornando profissional em 1966. Tornou-se escritor de ficção científica muito conhecido e criador da Associação Européia de Literatura Paralela. Depois temos o trio: Michel Feron, Dany De Laet e Claude Dumont. O primeiro não para de fazer fanzines após fanzines desde 1966, com participação em vários zines e em críticas em artigos jornalísticos.

(Sublinho a cores o facto de o estudioso brasileiro usar indiscriminadamente os vocábulos fanzines e zines, considerando, obviamente, que tanto faz a maneira como se escreve, estamos a falar do mesmo tipo de publicações artísticas/literárias, contrariando assim alguma vaga tendência que se nota actualmente em separar os dois vocábulos, como se de coisas diferentes se tratem).

Continuando a citar:

"Existem vários fanzines especializados em HQ na Bélgica, sendo o mais antigo o RAN TAN PLAN (o nome do cão do Lucky Luke) publicado pelo CABD (Club des amis de la bande dessinée), sendo o principal responsável André Leborgne, 435, av. Van Volxem, 1060, Bruxelas, Bélgica. De formato grande, este zine apresenta artigos, entrevistas, portfólios e reedições. É quase uma revista profissional, com reedições clássicas como Brick Bradford e Jim das Selvas."

(Reprodução respeitando a posição em que a banda desenhada foi colocada na pagina do zine)


       
Outro texto com muito interesse, extenso, de página e meia, que em seguida reproduzo parcialmente.

E NÓIS?
Não foi nossa intenção fazer um trabalho profundo sobre os zines da Europa, não só por não possuirmos dados precisos e atualizados como pela dificuldade em consegui-los em uma fase tão ingrata economicamente para os amantes dos Quadrinhos. Gostaríamos sim, de traçar um paralelo entre os universos que são refletidos através dos zines e as implicações de cada um, pra que possamos tirar algum subsídio que nos ajude a descobrir novos rumos para o movimento do quadrinho alternativo no Brasil.
A primeira questão a despertar nossa atenção, tanto no que se refere aos fanzines americanos quanto europeus é que eles são, em sua esmagadora maioria, produzidos por clubes, associações ou grupos de estudiosos, colecionadores ou pesquisadores. Dificilmente se encontra um fanzine de autor, ou seja um zine produzido exclusivamente por uma pessoa. No nosso meio o inverso é a realidade, pois geralmente os zines de HQ são editados, escritos, e às vezes até impressos por um único elemento, surgindo recentemente experiências de fusão de alguns zines ou colaboradores para a confecção de um trabalho conjunto. Isto pode resolver esta questão em cidades maiores em que o número de aficcionados seja grande para a divisão de tarefas, mas um vasto nº de revistas e nanicos são oriundos de pequenas cidades do interior, em que a atividade do fanzineiro é uma atitude solitária. Não tenho a menor chance como profeta, mas creio que o futuro pertence aos que se associam e dividirem tarefas e custos. Talvez chegássemos ao que seria o fanzine ideal: uma parte de nostalgia, outra de notícias, mais uma de comentários críticos, uma com novos autores, a seção de cartas, e eis aí a participação de um grupo.
(...)

Quanto à sugestão do autor não identificado deste artigo "E Nóis?" de que um bom fanzine deveria ter uma secção de cartas, ou seja, correspondência com os leitores, o Politiqua preenchia essa componente, como descrevo em seguida:

CARTAS
O fanzine incluía uma secção de correspondência com os leitores, onde vamos encontrar uma carta enviada por Edgard Guimarães, uma personalidade de elevado gabarito na área da banda desenhada do Brasil, que faz referência a Henfil, Voss, Luiz Gê, e ao português Luís Diferr (Luís Filipe Dias Ferreira).
Cito um excerto da carta:

"A HQ do Voss e a entrevista de Luiz Gê são das melhores coisas publicadas no Garatuja, mas o melhor mesmo são as HQs do Luís Felipe Difer (li em algum lugar que ele está na Europa)"

Tinha toda a razão, Edgard Guimarães, Luís Diferr (pseudónimo, assim grafado, que ele continuou a usar em Portugal), veio para Lisboa, onde se manteve a fazer BD de grande qualidade, tendo sido entretanto editado em álbum  
Quem quiser saber mais pormenores acerca do autor português (nascido em Angola em 1956) visite o seguinte link:

http://divulgandobd.blogspot.pt/2015/12/bd-portuguesa-em-jornais-luis-diferr.html
     

  



Ficha técnica
POLITIQUA
Nº 14
Janeiro 89 ANO V
Endereço: R. Julio de Castilhos nº 403 - Carlos Barbosa
CEP 95185 
RS.Brasil 

2 comentários:

Quiof disse...

Falando em fanzines brasileiros, a editora Marca de Fantasia do Henrique Magalhães disponibiliza gratuitamente pdfs do fanzine QI - Quadrinhos Independentes do Edgard Guimarães e alguns dos livros do próprio Henrique, como O rebuliço apaixonante dos fanzines, A mutação radical dos fanzines
e Academia não é amarelinha:

http://marcadefantasia.com/camaradas/qi/quadrinhos-independentes.html

http://marcadefantasia.com/livros/livros.htm



Geraldes Lino disse...

Quiof
Muito grato pela sua informação. Mas eu tenho edições em papel do fanzine QI - Quadrinhos Independentes e do livro O Rebuliço Apaixonante dos Fanzines.