segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Fandwestern - Nº1 - Série Matt Marriott




Fandwestern é o título do zine, já suficientemente explícito, mas o editor achou por bem reforçá-lo com o subtítulo "O fanzine do fanático da BD western".

Para além desta frase tipo slogan, o responsável que se esconde sob o pseudónimo "Adolfo Dias" (com uma ligeira cacofonia brejeira) escreveu uma nota de redacção em que demonstra o seu entusiasmo pelo tema, o western, pela série, Matt Marriott, pelo desenhador, Tony Weare, e pelo argumentista/guionista Jim Edgar.

Considero que vale a pena reproduzir pelo menos partes da citada nota redactorial:

"Esta [A Guerra do Gado] é a aventura que deu início à série de western ilustrada, que muitos consideram como a melhor que alguma vez se fez. Entre nós teve início no Mundo de Aventuras 437, ainda sob a enigmática designação de Calidano (...)
Esta série começou a sua publicação em tira diária, no jornal inglês The Evening News, em 1955 a 1977, e isso não permitia que a sua reprodução em revistas com formatos próximos do A4 fosse realizada sem que as tiras fossem desmontadas e depois reorganizadas de forma a caberem num formato para o qual de todo não tinham sido concebidas.
Isto provocava tremendos problemas aos paginadores, pois como as vinhetas sofriam agora de dramáticas reduções, os balões que continham as legendas não comportavam a dimensão dos textos, mesmo que estes aparecessem encurtados de forma por vezes original. Por isso muitas vezes tinham de ser alargados, ocupando zonas de ilustração sensíveis. Como era necessário muitas vezes amputar ou aumentar os desenhos, privava-se o público da maior e mais valiosa característica do seu autor, Tony Weare, que era a sua soberba mestria nos enquadramentos que imaginava para compor as cenas. Na verdade, Weare comportava-se com o sentido de um verdadeiro cameraman, dos que concebiam as cenas e iluminação de clássicos como Casablanca ou High Sierra, onde a fotografia preto e branco era tratada com suprema mestria. (...) 
Quem bem reparar, vai ver que ele só desenhava os contornos das figuras quando estas caíam sobre zonas brancas. Na maioria dos casos, era a textura dos segundos planos que fornecia os contornos dos primeiros, não se poupando Weare a esforços bem complicados, por vezes, para resolver as volumetrias das faces em close up, um pouco como no cinema se lidava com esse tipo de problema.
Tudo isto requeria um planeamento prévio que, para quem tinha de obrigatoriamente desenhar uma tira por dia, deveria tornar bem árdua a sua produção, impecavelmente mantida ao longo dos vinte e dois anos que durou a série. (...)
(...) Neste episódio, decerto por ter sido o primeiro, Tony Weare ainda nos surge como que a apalpar o terreno e a estudar as suas capacidades, não atingindo ainda os fantásticos patamares que ele vai alcançar já no episódio seguinte. E o argumento apenas serve para justificar a vida errante das suas personagens principais, nos setenta episódios de que esta maravilhosa série de BD se compõe.
                                                               Adolfo Dias
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Conselho: Clicar sobre a imagem para a aumentar e poder vê-la na totalidade
Conselho: Clicar sobre as imagens para as aumentar e vê-las na totalidade
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Estas são as primeiras tiras duplas do início do episódio"A Guerra do Gado", em que se toma contacto com o - então jovem protagonista Matt Marriott - que dá o nome à série.

Assistir-se-á ao longo da trama, desenvolvida em bom ritmo, à chegada de extensa manada de gado, conduzida por ganadeiros, indiferentes aos estragos causados nas searas, e ao desespero dos agricultores, entre os quais se inclui Matt Marriott.

Os acontecimentos precipitam-se, os pais de Matt morrem esmagados pela manada lançada propositadamente pelos ganadeiros, o que provocará o desejo de vingança do jovem.

Um enredo simples mas bem delineado, da autoria do argumentista/guionista Jim Edgar, com desenhos de grande nível de Tony Weare.

Em suma, um começo de grande intensidade desta série de origem inglesa, de que foram publicados setenta episódios.
José Pires (*) já editou sessenta e quatro fascículos do seu zine Fandwestern.
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Como é de depreender, não vou reproduzir a totalidade do episódio. A última página mostrada neste post foi a nº7, e passo a mostrar mais umas tantas tiras da banda desenhada, a partir da página 12 (mas não todas).




  
Repito o conselho: Clicar sobre as imagens para as aumentar e vê-las na totalidade.
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O autor de BD e faneditor do presente fanzine, é um admirador confesso de Tony Weare. O que fica evidente pelo bem documentado texto acima reproduzido, que pode ser lido aumentando o tamanho do corpo dos caracteres (como sabem os habituais visitantes de blogues, basta clicar sobre as imagens).
Em todo o caso, para facilitar a leitura, copiarei o texto na íntegra. Ei-lo aqui por baixo:
                                    ...

A Técnica Insuperável de um Mestre da BD, que se chamou Tony Weare

(Ou o uso da fotografia pelos grandes nomes da Banda Desenhada)
                              Por José Pires

Por deformação profissional e também por escolha mais ou menos deliberada, comecei a utilizar a fotografia como forma de ultrapassar as minhas carências e debilidades como ilustrador, publicitário e, mais tarde, como autor de BD.
Comecei por aproveitar os rostos de actores conhecidos para personalizar as minhas personagens, e esta escolha tinha a sua razão de ser. Aqueles que se interessam por um estudo mais aprofundado dos fenómenos da BD vão reparar que todos os autores imprimem uma marca tão individual nos rostos que desenham, que sabemos quase instantaneamente quem desenhou determinada vinheta, ainda que a assinatura do seu autor não esteja presente. Isto é quase como se de uma impressão digital, digamos assim, se tratasse. Por esta razão, um desenhador acaba invariavelmente por desenhar, quase inconscientemente, a mesma cara, com um ou outro pormenor para lograr diferenciar as suas personagens. Uns servem-se de truques mais ou menos simples, como acrescentar pormenores capilares, como barbas, peras e bigodes, cor dos cabelos e olhos, e pouco mais. Mas a matriz de cada um, a maneira pessoal que aprendeu a desenvolver para conseguir os seus intentos, essa permanece, por mais esforços que se façam.
Ainda me lembro de quando era garoto e ensaiava os meus primeiros passos nas Histórias aos Quadradinhos, um adulto me segredar que o mais difícil era uma pessoa desenhar sempre a mesma cara! Aquilo pareceu-me lógico na altura mas mais tarde cheguei à conclusão de que aquela pessoa que me dera aquela dica não era desenhador. Se o fosse, teria acrescentado que a dificuldade era desenhar sempre a mesma cara mas em meia dúzia de personagens diferentes! Ora aqui é que estava o busílis! Fazer caras diferentes... que se distinguissem umas das outras tão facilmente como nós distinguimos em milhões de rostos diferentes aqueles rostos que nos são familiares.
Nos anos setenta do século passado eu comecei a pensar em conseguir colaborar em revistas estrangeiras, pois em Portugal não era possível um autor de BD ganhar o suficiente para exercer tal profissão - uma profissão que eu desde menino sempre sonhara exercer! Por isso obtive forma de conseguir o semanário Tintin (na versão franco-belga) onde Hermann e o seu Red Dust faziam furor. Como sempre tive uma salutar curiosidade infantil, eu lia também o Correio dos Leitores. É que aquela era uma excelente maneira de uma pessoa perceber o impacto que os autores e as personagens obtinham perante o público consumidor, e assim poder interagir com eles! Qual não foi o meu espanto ao deparar com uma observação de um jovem leitor, que opinava : "... o Hermann faz as bocas das suas personagens todas iguais, sejam elas mulheres, homens, velhos ou novos...".
Eu fui verificar e... era mesmo verdade! Isto ainda mais agudizou as minhas dificuldades! Subitamente, tive um rasgo de intuição: eu tinha de basear os rostos das minhas personagens em gente real, pois a gente real é diferente entre si, ri ou emociona-se de maneira diferente, e não usa os mesmos esgares para exteriorizar os mesmos sentimentos!
Daí a eu aproveitar os rostos de James Dean, do Burt Lancaster, do Jack Palance ou do Gary Cooper, foi um ápice. Mas depois comecei a receber críticas de todos os lados por isso mesmo! Havia quem achasse interesse em que eu tomasse como referência os actores de cinema western e outros que encontravam nesse mesmo facto inconvenientes de toda a ordem. Ambos se equivocavam: eu não usava o rosto de actores conhecidos como "referências" de homenagem mas sim pelos motivos que atrás expliquei: apenas para conseguir diferenciar as minhas criaturas umas das outras e dar-lhes uma personalidade distinta!
A partir daqui nunca mais usei rostos de actores conhecidos. A minha condição de profissional publicitário dava-me a faculdade de possuir centenas e centenas de modelos, de todos os tamanhos, sexos e feitios, com todas as expressões necessárias, com a impagável vantagem de... serem praticamente desconhecidos!
Mais tarde comecei a descobrir que afinal não era só eu que usava a muleta da fotografia para resolver os meus problemas. Nomes como Jijé, Giraud, Palacios, para apenas citar aqueles que me vêm agora à memória, usaram, com a mesma frequência do que eu, o recurso da fotografia. Até um mundialmente famoso pintor e ilustrador americano, Norman Rockwell, nunca trabalhava sem usar a fotografia como referência!
No caso de que hoje venho falar, Tony Weare, foi uma enorme surpresa para mim. Tenho por este autor britânico a maior das admirações, pela sua técnica singular e a espantosa naturalidade das suas vinhetas. E, para minha total surpresa, deparei, de súbito, com algo que me era familiar. Sempre fui possuidor de uma memória visual que reputavam de notável, e não é que encontrei uma referência fotográfica em Tony Weare?! Coisa que eu nunca pensei encontrar! Mas, ali estava ela! Fui verificar e fiquei esclarecido: Tony Weare, tal como eu e mais uma legião de autores de BD, também recorria  (pelo menos de quando em vez) à fotografia. Não que isso o diminua na admiração que sempre terei por ele, bem pelo contrário, mas porque o seu exemplo me deu ainda mais a convicção que tinha, afinal, escolhido o caminho certo! Lá, onde estiver, Mr. Tony Weare, sinceramente, obrigado por mais esta sua importante lição!    
             
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(*) gussy.pires@sapo.pt
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Ficha técnica  
Título do fanzine: Fandwestern
Série: Matt Marriott
Título do episódio: A Guerra do Gado
Formato do zine: Oblongo (dito italiano) em A4
Nº de páginas: 42
Director Executivo: A. Coniglio [Américo Coelho]
Redacção: Adolfo Dias [José Pires]
Arte e grafismo: Gus Peterson [José Pires]
Data da edição: [2005]
Local da edição: [Lisboa]
Data da edição: [2005]
Local da edição: [Lisboa]

sábado, 30 de dezembro de 2017

Ruptura



No meu vasto acervo de fanzines - actualmente em poder da Fanzineteca da Amadora - encontram-se edições oriundas dos mais diversos pontos de Portugal. Este Ruptura, por exemplo, foi editado em Vila Nova de Tazem, freguesia do  concelho de Gouveia, em iniciativa do Centro de Difusão de Banda Desenhada Portuguesa, existente na época naquela localidade.

Teve vida efémera o Centro, e o fanzine durou apenas cinco números, mas tanto o Centro como o zine representaram um assinalável esforço de um pequeno grupo local de entusiastas da BD, também organizadores do evento 1ªs Jornadas de Banda Desenhada de Gouveia.

A este propósito, o zine Ruptura inclui uma separata com um texto, de que se reproduz um pequeno excerto:

1ªs Jornadas de Banda Desenhada de Gouveia - 5 a 9 de Agosto de 1982

     Estas "1ªs. Jornadas", organizadas pelo CENTRO DE DIFUSÃO DE BANDA DESENHADA PORTUGUESA - CDBDP, em colaboração estreita com a Câmara Municipal de Gouveia, e com uma grande ajuda dada pelo Clube Português de Banda Desenhada-CPBD e pela Embaixada de França no nosso país, pretendem essencialmente dar à população deste Concelho uma visão, ainda que reduzida, do fenómeno que é a Banda Desenhada na actualidade.
     Desta forma, foi organizada uma FEIRA DO LIVRO que conta, unicamente, com obras de B.D., estando integrada nela a "1ª Feira Nacional do Fanzine". (...)

Por aqui se verifica que os responsáveis pela iniciativa eram amantes da BD e dos fanzines (um deles, Paulo Félix, actualmente a residir em Lisboa, continua a ser bedéfilo e fanzinéfilo). E a banda desenhada ocupa quase todo o corpo do fanzine, além do que fica transcrito acima, publicado na separata, apenas aparece texto logo na página seguinte à capa, de onde transcrevo excertos:

À MARGEM
Cá estamos nós com o primeiro número daquele que esperamos venha a ser o principal meio "paralelo" de difusão da nossa já tão abandonada B.D.!
(...)
ALGUMAS EXPLICAÇÕES

(A) O NOME: Porquê "RUPTURA"?
- RUPTURA, porque pretendemos iniciar algo de novo no que respeita à BD amadora em Portugal!
- RUPTURA, porque, de facto, ruptura significa uma quebra com a tradição e com algo previamente moldado!
- RUPTURA, porque, implícita a este nome está uma ideia de movimento e de novidade!

(B) A APRESENTAÇÃO GRÁFICA
- Sabemos perfeitamente que a apresentação gráfica do presente deixa muito a desejar e procuraremos que ela melhore de número para número, de modo a irmos ao encontro do vosso gosto pois foi para isso mesmo que aparecemos.

(C) O CONTEÚDO
- Pretendemos neste aspecto seguir sempre, em cada número, o mais possível, a seguinte linha de orientação:
1) Nas primeiras 10 a 12 uma história completa (Ficção, Fantástica, Humor, etc.)
2) Ocupando um total de 12 a 14 páginas 3 histórias em continuação das quais duas terão a duração de 2 números, isto é, terminarão no número seguinte àquele em que começaram e a outra terá, no mínimo, a duração de 3 números.       
        
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SMOG







Esta banda desenhada (parcialmente reproduzida) demonstra o talento de um autor, Artur Branco, que desapareceu da arte sequencial, deixando aqui prometedora amostra.

Tal como tinha sido descrito na linha de orientação, SMOG, com onze pranchas, iniciava o fanzine. Outras bandas desenhadas o completavam, terminando com "O Mar Cruel", por Muas (desenhos e adaptação literária de um extrato do livro "The Cruel Sea", de Nicholas Monsarrat), estilisticamente discípulo em Hugo Pratt.

 

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Ficha técnica
Título: Ruptura
Formato: A4
Nº de páginas: 40
(Este número incluía duas folhas soltas, uma a divulgar o evento 1ªs Jornadas de Banda Desenhada de Gouveia, outra a angariar assinantes e trabalhos para serem publicados no fanzine.
Publicação aperiódica
Nº1 - Maio 1981
Editor: Centro de Difusão de Banda Desenhada Portuguesa - CBDDP
Local: Vila Nova de Tazem - 6290 Gouveia
Preço: 30$00