terça-feira, 25 de julho de 2017

Molto Portoghese, versão castiça, à portuguesa, de Corto Maltese



Beber vinho logo ao acordar, falar de futebol e do Benfica, contar proezas de condução automobilística na estrada, mencionar restaurantes e tascas onde se come a melhor carne de porco à alentejana ou um cozido à portuguesa do caraças (sic), não seria crível no italiano Corto Maltese, mas ao invés é perfeitamente compreensível no seu clone aportuguesado, o Molto Portoghese. Que, aliás, faz à perfeição o protótipo do português popular e castiço - e, se calhar, não só.

É essa versão caricatural que nos dá este Corto "Molto Portoghese", uma criação notável do ilustrador/designer e autor de BD Ricardo Ferrand, um português desde há largos anos a trabalhar em Inglaterra.

De Corto Maltese comemora-se neste mês de Julho o seu 50º aniversário. Este pastiche, gozão e divertido, encaixa-se bem nas comemorações, dá-nos uma versão inaudita do sofisticado herói de papel. 

Ficha técnica
Tertúlia BDzine
Nº77 - Abril 2004
Fanzine aperiódico
Tiragem: 500 exemplares
Formato A4 - 4 páginas a preto e branco
Distribuição gratuita na Tertúlia BD de Lisboa
Colaboração de Ferrand, autor da bd "Molto Portoghese"
Editor: Geraldes Lino
Apartado 50273
1707-001 Lisboa    

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Gambuzine - International Experience






Gambuzine foi um fanzine de elevado prestígio, editado durante bastantes anos por Teresa Câmara Pestana, com bandas desenhadas dela própria e de autores estrangeiros seus amigos, incluindo autores/autoras alemães/alemãs que ela conheceu durante os anos em que viveu na Alemanha.




Em 2003, Teresa, já a viver na Lousã desde longa data, decidiu fazer uma experiência que ampliasse a difusão do seu zine: editou-o em inglês, atribuindo o número zero a esta versão internacional.



Mais uma vez com bandas desenhadas de vários autores, portugueses e estrangeiros, impresso em papel de boa gramagem, de cor creme, o Gambuzine manteve nesta edição em língua inglesa o grafismo característico da Teresa, começando pela capa com legendas manuscritas e uma ilustração de sua autoria. 





Claro que, sendo a Teresa Câmara Pestana autora de BD, não se compreenderia que não colaborasse também nessa área. Aqui fica uma amostra do seu estilo:


Nomes dos colaboradores (por ordem alfabética): Aranha, Helena Dias, Rafael Gouveia e Teresa Câmara Pestana (Portugal); Cláudio Parentela (Itália), Matjaz Bertoncelj (Cazaquistão), Claytona e Stefana (Nova Zelândia).

Leonard Cohen é um cantor e compositor que muito admiro, está no topo das minhas preferências. Uma das suas canções foi transformada em arte sequencial por Rafael Gouveia (em baixo).







Nota do blogger: a inclusão neste post de algumas das bandas desenhadas não segue a ordem de publicação no fanzine.


Ficha Técnica
Título: Gambuzine
Sub-título: International Experience 
#0
Data: May 03
Impressão a preto e branco
32 páginas
Formato A4
Editora: Teresa Câmara Pestana
Local da edição: Lousã

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Saga



Saga, título deste fanzine, ainda não aparecia em nenhum lado da modesta publicação, nem na capa nem na ficha técnica. Era o nº1, e sabe-se, por cruzamento de datas, que tinha sido editado no 1º trimestre de 1972, Ano I dos fanzines em Portugal. O título apenas foi dado a conhecer no nº2, aliás último.

Andy Capp e Snoopy apareciam na capa deste zine editado por adultos, sócios do então pujante ABC Cine Clube de Lisboa. Obviamente, tratava-se de cinéfilos que igualmente eram bedéfilos, e nesta área demonstravam, nos artigos nele publicados, relevantes conhecimentos, começando pela gramática da BD em evidência no balão-pensamento que sai da cabeça de Snoopy, cheio de imagens que sugerem palavrões inconvenientes, ou seja, uma metáfora visualizada.

Saga classifica-se como zine sobre banda desenhada, visto que das suas dezoito páginas, nove são ocupadas por textos de estudo, crítica e divulgação. 

Um desses artigos que considero de muito bom nível crítico é dedicado à obra Kris Kool, de Caza, sendo assinado por MG (Machado da Graça?). 
Reproduzo-o (parcialmente) em seguida:


KRIS KOOL
de Philip Caza

Embora fosse minha intenção referir apenas obras que, pelo seu preço e difusão estivessem ao alcance da maioria dos leitores, um facto se produziu que me levou a alterar tal decisão.
Kris Kool, a obra em questão, começa por nos impressionar com a riqueza do seu colorido. Vastas manchas de cores vivas com contrastes bem pronunciados ferem imediatamente a vista de quem folheia o álbum. Prestando maior atenção verificamos uma extraordinária utilização do negro, quer nos finíssimos contornos das figuras quer nas imagens a preto e branco que nos surgem por vezes no meio de imensas manchas de cor. 

O tema, partindo das coordenadas normais da ficção científica, acaba por transportar o herói através de um enorme anel de Moebris (sic) para um mundo estranho que nos recorda insistentemente a obra prima do desenho animado que é o Submarino Amarelo. Não é, de resto, apenas uma impressão pessoal. É indubitável a influência do filme nesta obra de Caza, embora me pareça que no álbum há uma maior maturidade quer no aspecto do argumento quer no aspecto estético.O autor não se coibiu de introduzir no seu mundo fantástico, adaptando-as às necessidades da sua obra, imagens que nos são familiares, quer do campo da pintura, quer do cinema, quer das próprias histórias de quadradinhos, num piscar de olho ao leitor mais atento. Desde o Tarzan de Hogarth a René Magrite, passando por "La fin du monde" (filme de 1931) ou pela "Pravda" de Pellaert encontramos a cada passo imagens que nos recordam algo. (...)"



Há uma parte relevante ocupada por reproduções parciais de bandas desenhadas, (extraídas de O Século Cómico) com destaque para o herói Manecas, criado por Stuart Carvalhais, aqui sem a companhia do quase inseparável Quim.

O texto que antecede as quatro pranchas da banda desenhada (de que em baixo se reproduzem apenas duas) diz o seguinte:

ANTOLOGIA
O QUIM E O MANECAS
Stuart Carvalhais

Por volta de 1916, começou a ser publicada no "Século Cómico" uma série de histórias, da autoria de Stuart Carvalhais, que retratavam a vida do país durante o período da guerra e em que os heróis "colaboravam" no combate aos alemães com as mais impressionantes invenções.
Algumas dessas páginas foram escolhidas para inaugurar a nossa "Antologia", quer pelo seu valor objectivo, quer pela sua raridade e desconhecimento, mesmo em meios de estudiosos de Histórias em Quadrinhos (1).

Para uma melhor compreensão da sua posição na história da BD lembramos que, em 1912, se fundou o primeiro sindicato (2) distribuidor americano (King Features) e se começou a publicar Bringing Up Father, em 1920 Winnie Winkle, em 1924 o Gato Félix e Little Orphan Annie, etc... (...)" 
.....................................................................

(1) É curioso o facto de o autor (não identificado) deste texto usar a expressão brasileira Histórias em Quadrinhos, em detrimento da expressão tradicional portuguesa Histórias aos Quadradinhos, esta apenas substituída por Banda Desenhada (adaptação de Bande Dessinée) na década de 1960 por Vasco Granja, imediatamente aceite por quase todos os apreciadores portugueses da especialidade. 

(2) Traduzir "syndicate" por sindicato foi um erro que se entranhou por essa data e se tem mantido até hoje, com poucas pessoas a contrariarem-no, uma das quais este blogger.
Como é sabido, o vocábulo inglês para sindicato é "union", sendo que o termo syndicate corresponde, na prática, a agência distribuidora de publicações.          





Uma das rubricas que fazem parte do conteúdo do zine apresenta-se sob o título "Novidades aparecidas ultimamente em Portugal". 
Fazendo por esquecer o desfasamento temporal entre 1972 e 2017, vale mesmo assim apreciar o texto, que reproduzirei parcialmente:

Nº 36 do CHARLIE (Journal plein d'humour et de bandes dessinées). Direcção de Wolinsky e desenhos de Pichard, Topor, J.C.Forest, Smythe, Feiffer, Reiser, Schulz, Willelm, Al Capp, J. Hart, B. Parker, Barbe, Herriman, Bob van der Born e Crepax.

Nº 18 de PHENIX. C. Moliterni entrevista Gotlib. Thierry Defert e Bruno Capet entrevistam Mordillo e François Ruy Vidal.
Artigos sobre R. Gigi, Krazy Kat, 80º aniversário da B.D.

ACTUEL, revista "underground". Desenhos de Robert Crumb e Gilbert Shelton.

LINUS, nº1 (8º ano). Desenhos de Schulz, Frank Dickens, Mik, G.Trudeau, Copi, Feiffer, C. Segar, Al Capp, J. Hart, Parker, Pietro Nero, H. Post, Mort Walker, G. Crepax e um artigo de O.d.B. sobre Winsor McCay.

Nº 22 de RAN TAN PLAN. Especial Lucky Luke. Artigos de A.Leborque, Jacques Van Herp, Devos e Jacqueline Martin. 

LIVROS:
"Pour um 9ème art. La Bande Dessinée" de F. Lacassin.
Col. 10/18 nºs 649 a 652     




Diz a ficha técnica
Quem estiver interessado em receber este boletim pode pedi-lo para:
Secção de Banda Desenhada do 
ABC Cine Clube de Lisboa
Rua do Conde Redondo 20 - 3º dto.
para onde poderão também enviar a sua colaboração, críticas e sugestões.

Mais elementos para completar a ficha técnica que não constam da publicada no fanzine:
Título do fanzine: [Saga]
Nº 1
Data da edição: [1º trimestre de 1972] 
Formato: A4
Total de páginas: 18
Folhas soltas fotocopiadas, frente e verso, agrafadas
Periodicidade: [Aperiódico
Distribuição gratuita pelos participantes na Secção de Banda Desenhada do ABC Cine Clube de Lisboa
Lisboa