quinta-feira, 8 de março de 2018

Comic Cala-te




Comic Cala-te é um título que aproveita a cacofonia para fazer humor, não seria imaginável que tivesse a intenção de aconselhar qualquer forma de passividade, atitude nada consentânea com jovens pertencentes a uma associação de estudantes. É compreensível que o som do vocábulo anglófono comic tenha dado aos jovens alunos da Escola Secundária Gil Vicente (era Liceu antes do 25 de Abril) a ideia do trocadilho, que terá tido a ironia por finalidade, o que se deduz pelo espírito irreverente de algumas das bandas desenhadas que integram o fanzine.

A ideia para a edição do zine é explicada no editorial. 
Passo a citar:
"Este fanzine - o COMIC CALA-TE - é o primeiro trabalho do novo Núcleo de Banda Desenhada do Gil  Vicente. Esta iniciativa torna-se hoje tão necessária quanto é certo que este liceu reúne, não só um significativo público de BD, mas também um importante grupo de (potenciais) desenhadores, com grande versatilidade de estilos, e com qualidade mais que justificativa de um fanzine próprio. É importante para a Escola e para a realidade da BD amadora nacional, que esta experiência sobreviva aos obstáculos técnicos e financeiros que inevitavelmente se colocarão.
A ASSOCIAÇÃO DE ESTUDANTES espera com este Núcleo contribuir para o enriquecimento cultural desta escola, desenvolvendo um campo artístico inédito no Gil Vicente - a 9ª ARTE." 
Fim de citação.

Ainda na mesma página do editorial (que se apresenta sob estupendo grafismo) há uma coluna com os nomes dos coordenadores, onde se encontram dois nomes bem conhecidos hoje na BD, João Tércio e Rui Lacas, e um na política, Sérgio Pinto, que assina por Sérgio uma banda desenhada, e pelas suas iniciais SSP (Sérgio Sousa Pinto) um artigo sobre Fernando Relvas. 
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A rubrica Opinião, embelezada por um bom grafismo ilustrado por imagens bem escolhidas, ocupa duas páginas do zine. Nesta primeira  aparece o já mencionado artigo de SST sobre o autor Relvas que reproduzo a seguir:

"Fernando Relvas é, sem dúvida alguma, o melhor desenhador português de banda desenhada. Embora desconhecido de muita gente, Relvas é, no entanto, um dos mais populares desenhadores nacionais. Este facto deve-se provavelmente à sua colaboração no jornal "Sete" e, anos antes, na revista "Tintin". A sua obra, incompreensivelmente, nunca foi publicada em álbum. "Comic-Cala-te" publica na sua última página um esboço apressado da sua autoria, um pequeno trabalho que fala por si. SSP"
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Nesta segunda página dedicada a opiniões (críticas?), Torpedo 1936 provoca um texto de J.T. (João Tércio), que abaixo reproduzo:

"Já não há heróis..." Torpedo funciona como um, mas não o é, Torpedo é um anti-herói. Sim, porque a tradicional designação de herói é a de um tipo honesto corajoso e bondoso. Torpedo é assassino, faz tudo por dinheiro, é mal encarado, não deixando por isso de ser um herói.
"Torpedo 6" é mais um livro de BD, espetacularmente desenhado por Jordi Bernet, com um argumento de Sanchez Abulí. o 6º volume da colecção TORPEDO não foge à qualidade das restantes: os desenhos de Bernet são excelentes, e a história é razoável, embora Abulí faça melhor. Pessoalmente, Bernet faz parte do meu grupo de desenhadores preferidos e Torpedo um dos meus heróis.
"Torpedo 6", como todos os restantes volumes, é um livro essencial a uma colecção de banda desenhada. J.T. 
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Surge em seguida a colaboração de um jovem autor chamado Rui Mendes (ou apenas Mendes, como também assinava), bastante talentoso, que não conheci e do qual nunca consegui o contacto. Observem-se as três pranchas/páginas que se seguem.
    




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Surge na página 9 uma prancha de apresentação de Sérgio, com uma excepcional legendagem (manual?) do próprio, em que fala da banda desenhada que fez para a revista Selecções BD e que não chegou a enviar. Vamos começar por ver essa prancha de apresentação, que por si só dá uma ideia do talento do seu criativo.



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Após este excepcional teaser vamos ficar surpreendidos com o estilo totalmente diverso da tal banda desenhada (Euclides - Claustrofobia) que Sérgio não chegou a enviar para a citada revista, mas que é sem dúvida surpreendente, em que a personagem Euclides (uma genial figura clownesca) brinca com os próprios códigos da BD, neste caso cortando com a tesoura as linhas delimitativas das vinhetas, e no fim abrindo um buraco na prancha por onde se despenha!    



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 Temos depois uma composição da autoria de Lacas (um pseudónimo que passou a identificar o Rui), a afirmar ter feito a banda desenhada "Dívidas Até ao Pescoço" propositadamente para este nº1 do zine. Veja-se a apresentação:

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Veja-se/leia-se a banda desenhada de Rui Lacas, uma curta de três pranchas/páginas:

 


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João Tércio tem prestígio na BD nacional, cimentado com algumas aparições recentes. Aqui no zine, datado de há vinte e tal anos, já demonstra relevante cultura, ao escrever na apresentação da sua banda desenhada:

"A B.D. que se segue é uma adaptação de uma novela de Becket, grande autor contemporâneo. Tem por título "O Fim". O que funciona em livro, não funciona tanto em B.D. "O Fim" não é mais do que uma experiência pessoal no campo da adaptação da literatura para a 9ª Arte. A história narra, como o próprio nome indica, o fim da vida, contado com uma ironia e um humor negro devastador, de uma forma espectacularmente beckettiana."

               
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João Tércio fez em apenas três pranchas a síntese da novela de Beckett, "O Fim". Ei-las:



 
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Ricardo Tércio teve visível actividade na BD durante algum tempo, mas depois desapareceu. A sua prancha de apresentação é simples: "Não tenho muito para dizer pois acho que as duas pranchas seguintes apresentam-se a si próprias. É tudo".

Vejamos então as duas pranchas:
    


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E para acabar, a contracapa do zine apresenta um desenho improvisado por, nada mais nada menos, Relvas, a representar uma personagem criada por ele, publicada na revista Tintin (edição portuguesa) e com provável publicação em álbum ainda este ano de 2018. Infelizmente, Fernando de Melo Relvas já cá não está.  


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Ficha técnica
Título: Comic Cala-te 
Formato A4
Miolo: 24 páginas, agrafadas
Tipo de impressão: fotocópia, preto e branco
Conteúdo: bandas desenhadas 
Coordenadores: João Tércio e Rui Lacas
Data da edição: Janeiro de 1990
Preço: 150 paus
Local da edição: Escola Secundária Gil Vicente
Lisboa

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Efeméride - nº 2 - Fev.07


Capa de Carlos Alberto para o fanzine Efeméride, que engloba a obra colectiva Príncipe Valente no Século XXI.

Carlos Alberto, bem conhecido de quem foi leitor do Mundo de Aventuras e/ou do Jornal do Cuto, é o nome que encabeça a lista dos colaboradores deste segundo número do fanzine Efeméride, preenchido com bandas desenhadas-paródias de homenagem àquele famoso herói medieval.

                  Prancha da autoria de Pedro Nogueira

Para esclarecer o espírito e a intenção deste fanzine, editado por mim em Fevereiro de 2007, aqui reproduzo parcialmente o meu editorial:

"A 13 de Fevereiro de 1937 - por acaso um sábado, contrariando a tradição das Sunday pages -, iniciava-se a publicação, simultaneamente nas páginas de oito jornais americanos, da notável obra de Figuração Narrativa intitulada Prince Valiant - In the Days of King Arthur, sob a autoria absoluta (desenho, argumento e colorido) de Harold Rudolf Foster.
Decorreram setenta anos após o surgimento dessa saga de ambientação medieval, narrada através de imagens sequenciais, complementadas por descrições e diálogos incluídos em legendas didascálicas - Hal Foster nunca quis usar os chamados "balões de fala" -, imagens essas de inquestionável mestria.
Na sequência do que já tinha feito no número inicial do Efeméride - também em formato inusitadamente grande para um fanzine, e totalmente a cores - com o qual comemorava a secular efeméride do clássico Little Nemo in Slumberland, de Winsor McCay, transformado na obra-paródia Sonhos de Nemo no Século XXI, reuni um grupo de vinte e um autores-artistas portugueses - uns consagrados, outros de recente geração - fazendo-lhes idêntico desafio, dando-lhes agora, para glosarem, em homenagem descomprometida através novamente por "pastiches", um bem diferente tema: Príncipe Valente no Século XXI. Como resposta, cada um desses autores (...) tomando por modelo a figura e as proezas do quase sempre conspícuo príncipe, deixou deslizar a imaginação para episódios prenhes de delirantes anacronismos, de improváveis peripécias, de situações deliciosamente absurdas e irreverentes.

            Prancha da autoria de Renato Abreu

"Vários desses "pastiches" são cintilantes de humor, a roçar por vezes o sarcasmo: um príncipe que, além de careca, usa peruca, é absolutamente inimaginável numa série de banda desenhada clássica; e não o é menos o visionamento, embora esporádico, de imagens que pairam a curta distância da escatologia.

         Prancha da autoria de Álvaro

"Até aflorando tonalidade dramática, um desses criadores atinge o limite da probabilidade ficcional, matando simbolicamente o herói medievo, reencarnado em homónima personagem inserida numa sombria cena de guerra hodierna.


Prancha da autoria de Paulo Monteiro (desenho) e Susa Monteiro (colorido)

"Ao todo, formando panóplia por vezes desconcertante, decorrem vinte e um episódios onde aquela personagem marcante da Banda Desenhada mundial, ainda em publicação, é parodiada até ao delírio da criatividade."
Fim de citação

Outros colaboradores:
António Salvador, Augusto Trigo, Baptista Mendes, Carlos Marques, João Amaral, José Abrantes, José Garcês, José Ruy, Manuela Torres, Nazaré Álvares, Paulo Monteiro, Pedro Castro, Pedro Massano, Pedro Nogueira, Renato Abreu, Ricardo Cabrita, Rui Pimentel, Santos Costa, Zé Manel, Zé Paulo 

O "design" do fanzine esteve a cargo de Jorge Silva.

Efeméride
Nº 2 - 13 de Fevereiro de 2007
Formato A3 - Capa e miolo a cores
Tiragem: 100 exemplares
Editor
Geraldes Lino
Apartado 50273
1707-001 Lisboa